Inicialmente, pensei em chamar este artigo de “Malafaia, por que não te calas?”. No entanto, ele fugiria da proposta deste blogue, que é tratar de questões relativas à língua portuguesa. Os ensinamentos do Malafaia, e o pedido para que ele se cale, serão foco de outro artigo, em outro blogue meu (a ser inaugurado).
Muitos já devem saber da mais recente confusão em que o destemperado e iracundo pregador se meteu. Numa entrevista à revista Época ele disse que ia fazer determinada coisa com Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT). O rolo todo gira em torno do que o Malafaia teria dito. A revista registra que ele disse “fornicar”. Ele insiste em que disse “funicar”. O registro da entrevista está aqui e a explicação do ex-bigodado está aqui. Se quiser confirmar o que ele disse, ouça aqui.
Eu ouvi várias vezes. É possível ouvir tanto fornicar quanto funicar, já que o abespinhadiço pregador não pronuncia a palavra, seja ela qual for, de modo claro. Ao contrário do que ele afirma – “onde todos podem constatar que não utilizo a palavra fornicar, mas sim, funicar” – não é possível, não, distinguir entre elas sem haver qualquer dúvida. Fica ao gosto do ouvinte. Eu, particularmente, acho que ele disse fornicar mesmo.
Mas quero me deter na explicação dada por Malafaia. Diz ele:
Foi com esse sentido que usei a palavra “FUNICAR”, uma gíria que significa “ferrar”, “arrebentar”.
À luz dessa explicação, tudo se torna muito simples: basta encontrar base para a afirmação dele sobre a existência e o significado de funicar, e pronto! A culpa ficaria com o jornalista que, ignorando o vasto universo vocabular da língua portuguesa, optou pela palavra que lhe era mais conhecida. Mas a coisa não é tão simples.
A revista Época já disse: “A expressão ‘funicar’, reivindicada por Malafaia, não existe em nenhum dos quatro principais dicionários da língua portuguesa, o Aurélio, o Houaiss, o Luft e o Michaelis.” Eu acrescento: também não existe no Dicionário Gramatical de Verbos do Português Contemporâneo do Brasil, nem no Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa de Caldas Aulete (1958), tampouco no livro Conjugação dos Verbos em Português, de Maria Aparecida Ryan, que traz 6.000 (!) verbos (e foi esquecer justamente de funicar!). Pesquisei também no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, com 381 mil verbetes, e nada de funicar.
Mas, como o facundo cidadão disse se tratar de gíria, é possível que todos esses dicionários obsoletos não tivessem registrado ainda esse neologismo. Nada mais natural, já que a língua é dinâmica e viva. Por isso, foi preciso ampliar o universo de consulta para… todo o universo! Leia-se: Google. Vamos lá!
A situação se agrava. São Google também desconhece funicar no sentido dado por Malafaia. Há uma empresa de funilaria de carro (em nome do proprietário, obrigado, Malafaia, pela propaganda… ou não), há algumas piadas de português em que o termo é usado como sinônimo de fornicar (mas alguém poderá dizer que é erro de digitação). Neste endereço há funicar na acepção do entrevistado. Note, porém, que é um dicionário feito por internautas, sem qualquer compromisso com a língua. E, curiosamente, são anônimos os que dão o significado que interessa ao Malafaia. Fãs dele, talvez…
Mas uma luz no fim do túnel parece vir. Neste endereço alguém dá outra solução ao mistério: trata-se de palavra arcaica com o significado de “fazer passar por um funil”. Será que foi um ato falho do defensor do plebeísmo usar uma palavra arcaica e chamá-la de gíria? Então, o erro de todos os que o acusam está em usar dicionários modernos?! Será que agora tudo se resolve?
De volta à pesquisa. O Novo dicionário da língua portuguesa, de Cândido de Figueiredo, de 1913, não registra funicar, apenas “infunicar v. t. Chul. Desfigurar; mascarar”. Mas não foi isso que o Malafaia disse ter dito. (Espero que ele não use este modesto artigo para mudar seu discurso.) Talvez Figueiredo não seja suficientemente arcaico. De volta ao túnel do tempo, então.
Procurei os mais antigos dicionários de português disponíveis na internet. Estão aqui. Nada de funicar no Vocabulario Portuguez e Latino, de Bluteau (1712-1728) nem no Diccionario da Língua Portugueza, de Antonio Moraes da Silva (1813). Quão arcaico precisa ser o dicionário para podermos dizer que o Malafaia estava certo?
Fui para além-mar. Consultei o Priberam, excelente dicionário online de Portugal. Os portugueses também não funicam.
E agora?
Como já perdi boa parte do feriado com esse assunto, lanço um desafio ao Malafaia. Gostaria que ele apresentasse um documento em que seja usado o verbo funicar e com o significado que ele disse ter. Que documento? Como teoricamente é uma gíria, então texto de revista ou de jornal popular, gravação de programa de rádio ou de entrevista na tv, música popular… qualquer coisa de no mínimo seis meses antes da cerval entrevista. Se isso existir, reconhecerei novamente minhas limitações sobre a língua falada no Brasil. Caso contrário, considero que o Malafaia, mesmo que não assuma, sabe que errou. E, quem sabe, pense um pouco mais antes de falar.














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