Sobre lusofonia e sobre o acordo

Encontrei dois excelentes artigos hoje. O primeiro é uma entrevista com o escritor moçambicano Mia Couto. Nele, Couto fala de sua obra, de seu modo de escrever poesia em forma de prosa, de lusofonia e do acordo. Destaco o seguinte trecho:

O senhor é um crítico da lusofonia da forma como ela está posta atualmente. De que modo ou modos esse conceito poderia se tornar, de fato, eficiente?
Possivelmente, já estão se fazendo coisas que ultrapassam as agendas proclamadas por governos. Há intercâmbios que se realizam em um nível pouco visível, mas que resultam de forma duradoura. Outras realizações são mais conhecidas e mais espectaculares. O Brasil penetra no imaginário africano por via das novelas televisivas, e isso tem vantagens e desvantagens. Seria preferível que fossem, por exemplo, a literatura e o cinema de alta qualidade que nos chegassem. Mas sempre foi assim: Roberta Miranda, Roberto Carlos, Nelson Ned e Fafá de Belém tiveram uma penetração bem maior que Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia. Foram os mais populares (mesmo que de qualidade questionável) que fizeram a lusofonia que temos hoje. Os que laboram na aposta da qualidade serão ainda por muito tempo uma minoria. Talvez faça parte da nossa cultura comum saltitarmos entre cerimônias festivas e dramas de existência. Não creio que a lusofonia se faça por via de debates. Não vejo os francófonos debatendo a francofonia como nós fazemos com a língua portuguesa. Para os anglófonos, nem sequer a questão se coloca. É triste que a maior prova da existência da lusofonia seja a sua insistente proclamação e a sua intermitente contestação.

O que o senhor pensa a respeito do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa?
Um acordo que precise tanto de justificação já nasceu de uma meia verdade. O que nos falta para uma maior proximidade não é a uniformização da ortografia. Sempre lemos em Moçambique os autores brasileiros na sua grafia original. E os amamos assim mesmo. E, se calhar, também por causa dessa dissemelhança. Os meus livros são publicados no Brasil sem adequação a ortografia nenhuma. E nunca houve ninguém que me dissesse ter tido dificuldade. O que nos separa são outras razões. E essas devem ser discutidas com verdade.

O segundo artigo trata mais especificamente da lusofonia, da falha definição usada, a qual resultou, entre outras coisas, no tal acordo ortográfico. Entre os vários autores citados e/ou entrevistados, Mia Couto. Destaco o trecho a seguir:

Outra questão, como coloca Costa, é a distância entre a teoria e a prática dessa suposta aproximação: “Quando se fala em lusofonia, pensa-se muito no mar português, no imaginário daquele país, nas suas dores como um ex-império e nos sentimentos belos ou confusos que isso tudo causa. Prefiro a associação de quem fala português no mundo não como lusofonia, voz de luso, mas como as vozes que falam português pelo mundo. A língua portuguesa não é de luso, mas de todos os que a usam”.

Essa opinião é compartilhada por Mia Couto, crítico ardoroso do projeto lusófono no âmbito institucional. “Somos nós que falamos e escrevemos em língua portuguesa todos os dias. E aqui reside uma das muitas inverdades quando se fala de lusofonia. Boa parte dos 20 milhões de moçambicanos não fala português. Não são lusófonos. Se a cidadania que buscamos passa exclusivamente pelo idioma, esses meus compatriotas estão excluídos. Precisamos de uma lusofonia suficientemente plural para poder ser falada nas línguas que são as nossas. Como diz Eduardo Lourenço [ensaísta português]: o que importa não é apenas a língua que falamos mas como somos falados por essa língua.”

Leiam os dois artigos. Valem o tempo investido.

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